Patricia Melo Sampaio é professora da UFAM e doutora em História.

Ainda há algo a dizer sobre o 13 de Maio?

Vamos tentar: afinal, a data é de alto valor simbólico e já passou por muitas releituras. Machado de Assis registrou em suas crônicas o entusiasmo que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro quando foi assinada a Lei Áurea e, depois, quando muitos abolicionistas lastimaram a forte adesão de ex-escravos à causa da Monarquia em detrimento da República. Era difícil ser diferente para a maioria; afinal, a Princesa que enfeitava seus vestidos com camélias, flores-símbolo da causa abolicionista cultivadas no quilombo do Leblon, tornou-se um verdadeiro ícone!

Durante longo tempo, o 13 de Maio foi celebrado como ponto alto de uma ação benevolente da casa real que, com isso, teria sacrificado sua própria continuidade política. Muito citado como prova desta condição é o comentário do Barão de Cotegipe, representante das elites cafeeiras, quando foi cumprimentar a Princesa após a assinatura da Lei: “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu seu trono!” Assim, associado à personagem da Princesa Isabel, o 13 de Maio passou a ser a materialização da história que se contava do ponto de vista dos grandes vultos pátrios e, embora festejado pela tradição (e pretensos historiadores de província), foi seriamente criticado por novas gerações de historiadores que, desde os anos de 1980, vêm se ocupando em construir outros paradigmas de análise do passado e do presente.

Para esta geração, inicialmente, o 13 de Maio era uma data para se combater destacando as formas subordinadas e preconceituosas com que os ex-escravos foram inseridos no cenário pós-abolição. Também foi desta forma que o Movimento Negro se apropriou do 13 de Maio e o transformou em um dia de protestos, sem espaço para comemorações, afirmando que a liberdade não havia sido concedida e sim conquistada na luta dos negros contra a escravidão. Impulsionado por um vasto conjunto de novos trabalhos de pesquisa histórica, o Movimento Negro viu surgir outros heróis para celebrar no 13 de Maio: Zumbi foi um dos mais fortes, do ponto de vista simbólico, porque carregava toda a força da luta contra a escravidão materializada na resistência de Palmares.

A importância deste embate foi enorme não é exagero dizer que, por conta dele, emergiu o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, que, não por acaso, é o dia da morte de Zumbi dos Palmares.

E Manaus? Tem lugar nessa conversa? Sem dúvida, mas não vou repetir a velha história sobre a antecipação da abolição no Amazonas! Todos já sabem que ocorreu em 1884! O que poucos sabem é que os escravos de Manaus lutaram duramente por suas alforrias. Dados recentes indicam que 68% dos que conseguiram suas cartas de alforria pagaram por elas. Este número derruba, definitivamente, as idéias que circulam sobre a benevolência e forte sentimento abolicionista das elites manauras! A maioria destes alforriados eram mulheres que juntaram pecúlio e buscaram diversas formas de apoio para tal façanha. Esta é uma boa hora para não esquecer Justinas, Raimundas e Felícias.

O movimento social afro-religioso em Manaus também foi pioneiro na transformação do 13 de Maio em uma festa muito diferente e, em 2007, por proposta da Vereadora Lúcia Antony, foi sancionada a lei n. 1.159 que instituiu o Dia das Religiões de Matrizes Africanas e Ameríndias em Manaus. 122 anos depois da abolição ainda é preciso falar de liberdade, de igualdade, contra a intolerância e o preconceito. Enfim, este continua sendo um dia para não deixar esquecer como chegamos até aqui.