O Capitão-do-mato

"Há a profissão mais alta e mais honrosa do que a de soldado? Há profissão mais baixa e mais degradante do que a de capitão-do-mato?" - Joaquim Nabuco, sessão legislativa, 1887

Os Capitães-do-mato eram em sua imensa maioria pretos e mulatos forros (livres),  caçadores de escravos fugitivos, que capturavam a troco de recompensa, realizavam o  serviço por encomenda de latifundiários ou em busca própria por qualquer escravo que encontrassem em rota de fuga. Foi no Sec. XVII  que a Profissão se desenvolveu.

A seguir um trecho escrito em 1824  por  Johann Moritz Rugendas encontrado no  livro
( Viagem pitoresca através do Brasil. São Paulo, Martins-EDUSP, 1972. pp. 159-160.)

"Poder-se-ia pensar que num país como o Brasil deve ser quase impossível pegar um negro fugido; é raro, no entanto, que este não seja rapidamente preso. Deve-se esta facilidade à instituição dos capitães-do-mato. São negros livres que gozam de um ordenado fixo e são encarregados de percorrer os distritos de vez em quando, com o fito de prender os negros evadidos e conduzi-los a seus senhores ou, não os conhecendo, à prisão mais próxima. A captura é em seguida anunciada por um cartaz afixado à porta da igreja, e o proprietário, desse modo, logo se encontra. Muitas vezes, esses capitães-do-mato empregam, nas suas buscas grandes cães ensinados."



Capitão-do-mato gravura de Rugendas-1824

 



Henrique Dias, foi um deles, patriarca do exército brasileiro e herói da guerra contra os Holandeses nas batalhas dos Guararapes em 1648 e 1649, onde comandou o "Terço de Henriques" (formado por combatentes negros) pelo que recebeu o título de "Governador dos crioulos, pretos e mulatos do Brasil", ajudou a arrasar vários Quilombos principalmente na Bahia.




 
De acordo com Nelson Rosa - Professor do Departamento de História da FEUDUC e Mestre em História, em seu texto  "Entre Escravos e Senhores: a ambigüidade social dos capitães do mato" :

" O cargo de capitão do mato, para um escravo liberto, atendia às demandas simbólicas de distinção social numa sociedade escravista. A “posição” de capitão do mato colocava aquele que vestia a dignidade de tal ofício mais próximo do senhor do que da escravaria, conferia autoridade e prestígio, ostentando um poder que o deixava acima dos escravos e dos pobres livres. É bom lembrar que os capitães do mato eram ou tornavam-se moradores das freguesias em que atuavam. Sendo assim, acabavam vivendo o cotidiano da comunidade, configurando relações sociais com taberneiros, tropeiros etc...Portanto, é a própria forma de configuração de interdependência numa sociedade escravista que cria a circunstância em que senhores           acabavam por confiar seu poder armado aos capitães do mato como meio de defesa da ordem escravista, revestindo tal posição de algum prestígio, pois era um meio eficaz de se contrapor às ameaças ao patrimônio representadas pelas fugas de escravos e pela formação de quilombos "

Em  referências variadas pela propria web se encontra em relatos a presença de capitães-do-mato ou grupamentos formados de capitães-do-mato em investidas contra Quilombos,  os piores inimigos dos capitães-do-mato eram os Capoeiras (quilombolas e escravos que praticavam a luta de origem Africana) que teriam tal nome por ficarem nas regiões de mata chamada capoeira de onde saiam para enfrentar os capitães-do-mato.

NA ATUALIDADE o termo  CAPITÃO-DO-MATO é utilizado por integrantes do movimento negro para designar aqueles afro-descendentes (pretos e pardos) que realizam serviço contrário aos interesses da causa negra, seja através de sua colaboração inconsciente com a ideologia racista e de negação do racismo através de seu posicionamento individualista e discurso meritocrático (principalmente ao atingir posição privilegiada ) e defesa dos falsos conceitos do  "Mito da democracia racial brasileira"  , seja através de ações discriminatórias levadas a cabo contra seu proprios irmãos de origem, seja através da própria negação da sua identidade enquanto negro (que é sinônimo de afro-descendente).

 

 Compilado por Juarez C. da Silva Jr. -  2005.