COTAS RACIAIS, por Rosa Godoy – professora doPPGH/UFPB/ UFPE

Curto e grosso: vou escrever sobre as cotas raciais.

Fico estupefata como este tema incomoda nossa “alta” intelectualidade.
Os argumentos são os mais variados, mas todos têm algo em comum: o tema é absolutamente desestorizado da longa trajetória histórica de luta de várias minorias sociais do país, entre as quais os negros e os indígenas.
A classe média esperneia. Muito interessante. Quando é que ela, historicamente, lutou ao lado dos subalternos?

Dirão, compungidos: lutamos contra a ditadura militar. Sim, porque muitos dos seus filhos – estudantes e muitos componentes desta classe que não acreditaram mais nos limites da própria classe média nem da democracia representativa, amordaçados pelos militares – estavam sendo mortos pela ditadura, destroçados pela ditadura, e essa classe média lutou com a dor das perdas individuais de seus familiares mas não com a dor como a de uma classe que, historicamente, estava perdendo a guerra contra o autoritarismo, ela, classe média, que, em grande parte de seus segmentos, apoiou a ditadura, em 1964, por temor ao comunismo e às esquerdas.

A classe média – ou as classes médias, como melhor as configurou o Professor Décio Saes – perdeu a sua grande oportunidade histórica com o movimento abolicionista. Lutou a favor dos escravos ou dos seus próprios interesses que o sistema escravista prejudicava? Lutou/lutaram pelo mercado de trabalhadores livres (livres? em termos de, juridicamente, não serem escravos, porque são tão livres ... até hoje) porque era o espaço que almejava(m). E depois da abolição, o que pensou e propôs sobre os escravos? Tirante uns precursores – essa vai para os que ignoram a História do Brasil: como José Bonifácio, que propôs abolição da escravidão, ainda que “lenta e gradual” (depois dizem que os milicos que inventaram isso, o know how das nossas elites é fabuloso em matéria de sacanagem) bem como medidas para distribuição de terras a ex-escravos; e tirante figuras de republicanos históricos como Silva Jardim, que, obviamente, não agradou as elites porque também queria uma reforma agrária
– , a(s) classe(s) média(s), que muito se serviu/serviram da escravidão até ela incomodar (não foram só os latifundiários) encerrou/encerraram , peremptoriamente, a questão do negro e ex- escravos depois do 13 de maio de 1888. Seus interesses estavam garantidos. Estavam mesmo? Doce ilusão!

E depois? Quando é que as classes médias defenderam os interesses dos subalternos?
No tocante ao ingresso no Ensino Superior, calou a boca. Aceitou as regras do jogo de um Vestibular seletivo que foi implantado no país em 1911. Duvidam? Vão conferir.
E, agora, ela esperneia. Joga com um discurso de “sucessos individuas”, porque “eu fiz isto”, “eu alcancei aquilo”, “eu me esforcei ...”

Eu também. Sou originária de uma classe média média, mais para baixa, por empobrecimento de classe do que para cima. Sou Pós- Doutora. E daí? Não raciocino por este individualismo idiota que nos fragmenta e não leva a nada. Ou leva, ao nada, à impotência política.

Vamos fazer umas contas e uns raciocínios elementares, muito elementares: se a meritocracia individualista liberal e neoliberal fosse um sucesso, por que, quem realiza curso superior no Brasil, é uma imensa minoria, comparativamente, ao todo da população brasileira, mais de 180 milhões de pessoas? E olhe, incluindo elementos de classe média ... mas em imensa minoria ... Os que estão dentro, não pensam nos que estão fora.

Vamos fazer um simples levantamento da renda anual dos que entram na Universidade: quem entra nos cursos ditos “nobres”?,terminologia que, aliás, é hierarquizante e preconceituosa. Por que são mais capazes? Ou porque têm mais dinheiro para estudar em boas escolas e pagarem cursinhos que, durante muito tempo, sabiam os macetes do Vestibular, “bizus” decorebas que não exigiam conhecimento efetivo mas meras informações?.

Desde quando a Escola Pública é pública, no sentido republicano da palavra, no sentido jurídico de “igualdade para todos”? A igualdade jurídica de todos é uma ficção. Dia após dia, estamos assistindo isto, em um mundo cada vez mais comandado pela ética do “vale tudo”. E a classe média fica, mais uma vez, no pântano, para, na hora do “vamos ver”, sem titubeios, apelar para esta falta de ética.

Por que a elite não “chia” tanto como a classe média? Porque ela paga uma Universidade particular, um Curso de Medicina que tem na cidade, que custa por volta de R$2.200, 00 a R$ 2.500,00 por mês. Paga o curso de Direito no UNIPÊ, que não sei quanto custa. Ou manda os filhos estudarem fora, > fora da UFPB, fora da Paraíba, fora do país.

Mais uma vez, a classe média perde o bonde da História. Prefere fica do lado do privilégio (restrita a uma visão míope de nº limitado de vagas nas Universidades públicas), quando poderia estar ao lado dos subalternos brigando por mais vagas nas IES públicas. Mas .. não! Cada qual que defenda a sua solução individual: se meu filho entrar na Universidade, que se dane o resto! Que ilusão medíocre! Vai ver depois a refrega por um posto no mercado de trabalho. E aí, o sujeito apela para os conhecidos, para o tráfico de influência, para ... Que democracia igual para todos! Pior de tudo é ver intelectual com este raciocínio e essa prática. Que intelectual é este? Comprometido com que? Com quem?

A questão das cotas, ao menos, está servindo para que máscaras caiam. Que discursos bonitos, de “defesa da diversidade”, se esfumacem. Nada como a prática política.

Os movimentos de minorias sociais não estão brincando. Acho que eles se saturaram de ficar esperando solidariedade de outros segmentos sociais e estão brigando por aquilo a que têm direito, de acesso à Educação, mais direito deles do que de todos, pelo esbulho, expropriação e exploração a que foram submetidos historicamente, durante séculos. Mais direito do que de todos porque – e não vamos sair do exemplo paraibano – recente pesquisa histórica mostra que não só os ditos “pretos”, mas, sobretudo, os pardos (os mestiços de brancos e negros) compuseram a maioria dos escravizados da Paraíba, depois de 1850. Isto significa dizer que a mestiçagem foi uma piada em termos de democracia racial, que os descendentes de negros (mesmo que só em 50%, biologicamente) sofreram, comprovadamente, do ponto de vista histórico e, o estigma de terem sangue negro. O lado branco não os promoveu socialmente, com exceções, a maioria continuou excluída econômica, social, política e culturalmente.

De modo igual, ou sei lá se pior, em todo caso, diferente mas igualmente excludente, aconteceu com os índios. Por que será que a Paraíba só tem hoje um único povo indígena? Melhorzinho do que o Rio Grande do Norte, que não tem nenhum ... E os que lá nascem, é que são chamados de potiguar ... piada de mau gosto (aliás, escamoteando > a nomenclatura é potiguara.

E a classe média não me venha tirar da seringa, porque foi e tem sido conivente com este estado de coisas.

Agora, vem diretor de cursinho (pasmem!) dizer que a Universidade está deixando de defender a Escola Pública! Que maravilha de benemerância do setor privado! Quando a água bate naquela parte da zona sul, aí os beneméritos que se importaram muito com a Escola Pública, que “não ganharam quase nada” às custas da péssima qualidade do Ensino Público, vêm também compungidos ... defender a Escola Pública?

Tem mais uma: soube, um dia desses – não estava presente nem tinha porque – que, em um determinado Centro da UFPB, ao discutir-se a questão da cotas, alguns intelectuais esbravejaram:” já não chega agüentar os burros, temos que agüentar negros e índios”. Isto me foi relatado por inúmeros depoimentos. Estou encantada. Deveras! Fazia tempo que não ouvia as vozes destes pensadores brilhantes, especialmente (é espantoso) protestando ou se mobilizando contra a péssima qualidade dos alunos ingressantes na Universidade, e, sobretudo, contra a péssima qualidade das Escolas de Ensino Médio (públicas e, majoritariamente privadas, pois desta últimas é que egressam, majoritariamente, os alunos para a Universidade) . Mais do que isto: contra a péssima qualidade dos Cursos de Licenciatura em que dão aulas. Ou, mais uma vez, a irresponsabilidade vai imperar: eu lavo as mãos, dou aulas nas Licenciaturas, mas não respondo pela péssima qualidade dos alunos que saem delas vão para as
Escolas de Educação Básica?

O debate das cotas está expondo as vísceras, muitas vísceras (podres, claro) da sociedade, da Universidade.

Se os membros das classes médias de hoje espernearem porque não têm nada com o passado, briguem, também, contra o Governo, todos os Governos de plantão, a favor dos seus direitos (estou falando de direitos e não privilégios). Aliás, ignorar o passado é um “grande caminho” para a alienação. Briga, aliás, muito pouco visível, apesar das queixas contra salários etc, especialmente na Universidade, onde se faz greve com férias extras na praia e outras paragens. Um belo grito inútil de ira discursiva se esvaindo no ar!
Ainda está faltando acontecer muita coisa neste país. Se se quiser que ele seja melhor. Se não se quiser, agüentem a violência. Que não deve ser, em hipótese alguma, imputada só a negros e pobres. Esta é outra farsa. Por que a violência é praticada, também, por brancos bem brancos. Por que os brancos consomem tantas drogas? Por que os brancos praticam pederastia? Por que são brancos a praticarem turismo sexual? São apenas alguns exemplos, há muitos outros. Dá para fazer um catálogo.

A História é bela por conta disso. Um dia, quem está em baixo, se revolta. E luta, e provoca mudanças. Quem não enxergar isto, que dance, pateticamente, como no último baile da monarquia brasileira na Ilha Fiscal.

Aliás, nem tudo que aconteceu depois daquele Baile, se completou. Ao contrário, muito pouco.

Está faltando muito mais. Eu torço e contribuirei para que aconteça. Não tenho medo da “multidão na História”, como disse o historiador francês Robert Mandrou. Nem que ela me engula.

João Pessoa, 21/06/2007.
Rosa Godoy


COTAS RACIAIS, por Rosa Godoy – professora doPPGH/UFPB/ UFPE