Divisões perigosas na cabeça do brasileiro “não-racista”

 

 

                                                                            por Juarez C. da Silva Jr.- 2007

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que apesar do título que lembra um pouco a hilariante junção estabanada de fatos históricos desconexos em  famoso samba do passado, o presente  texto não é um “artigo do crioulo doido”, também não é exatamente  uma resenha de "obra" literária  específica (onde o entendimento  de "obra" pode democraticamente variar do senso comum ao sentido substantivo de um verbo já em desuso...), mas sim uma crítica a um fenômeno relativamente recente e que se manifesta através de variados meios e formas, mas principalmente através de lançamentos “literários” e da repercussão e linhas editoriais alinhadas da  grande mídia .

Na última década, a sociedade brasileira que parecia "deitada eternamente em berço esplêndido", acordou de maneira geral, com relação  a um mito que apesar de desmascarado já nos anos 50 do século passado, na trilha do famoso trabalho da UNESCO, realizado por importantes cientistas sociais nacionais e estrangeiros (entre eles os grandes Oracy Nogueira, Florestan Fernandes, Thales de Azevedo, L. A. Costa Pinto,  Roger Bastide  e Marvin Harris), habitava e ainda habita no imaginário de muitos brasileiros, o mito da “Democracia Racial” ;  racismo e desigualdade eram assuntos "tabu", presentes apenas nas discussões do Movimento Negro (MN), nos trabalhos acadêmicos de um número reduzido de pesquisadores,  ou  relegados à dados dos Institutos de pesquisa e estatística até então pouco divulgados e conhecidos.

Porém, tal situação mudou com o advento da Internet no Brasil e com a proposição nas casas legislativas, de leis e políticas de Ação Afirmativa (AA), que poderiam efetivamente alterar o "Status Quo" das relações de raça e classe no Brasil.

Juntamente com o acesso facilitado à informação, a capacidade ampliada de articulação dos movimentos sociais (entre eles o MN) e o início dos processos de reivindicação legal de AAs, surgiu uma  verdadeira "onda reacionária" formada por políticos, catedráticos até então desconhecidos do grande público, artistas “controversos”, jornalistas, internautas e estudantes de classe alta/média, além de  veículos  de  comunicação alinhados com a mentalidade neo-liberal, em tal frente se alistaram até mesmo sindicalistas obscuros e marxistas ortodoxos que teimam em  enxergar tudo como “questão de classe”, remetendo as respectivas soluções sempre a um universalismo utópico e plenamente socialista; como manda as regras do meta-racismo até movimentos “anti-racistas fakes”  contrários as AA apareceram do nada para “apoiar” os  que defendem a idéia de que vivemos uma “democracia racial” ou que reconhecendo não existir tal “democracia” enxergam as AA com recorte racial como um “perigo ainda maior” para a democracia e relações sociais.

É interessante perceber, que nomes nunca antes ouvidos nas discussões ou citados em estudos sobre a temática étnico-racial brasileira, começaram a pulular na mídia conservadora e “embasar” a argumentação dos que apaixonadamente reinventam o velho discurso da democracia racial brasileira, a quem me refiro como  NEO-DEMOCRATAS-RACIAIS; com suas desastradas tentativas de ocultar ou distorcer o obvio..., “desqualificando” ou ignorando  trabalhos sérios e metódicos elaborados desde muito antes das AA começarem a se materializar,  ou ao fazer “re-engenharias mirabolantes” com as claras estatísticas, “provando” que absolutamente todos os institutos estão “errados”  e apenas eles certos... .

É impressionante observar as falácias primárias em sua argumentação, bem como o cinismo meta-racista com que tentam travestir de “anti-racistas e pró-democráticas” suas ações e argumentações, chegando ao cúmulo de tentar “inverter os papéis” acusando conhecidos combatentes históricos do racismo  de “racistas” , ou de forma alarmista anunciando “divisões”, ódios, preconceitos e discriminações  que no seu entendimento nunca existiram nem existem.... , mas que se tornariam realidade justamente pelas políticas criadas para coibi-las..., o que por analogia seria algo como dizer que instalar um maior número de semáforos e radares em uma cidade fará surgir um sentimento geral de aversão às leis de trânsito, estimulando assim  as transgressões, aumentando a violência no trânsito, o número de acidentes  e de multas,  coisas que antes “não existiam” porque todos já “andavam na linha”  .

Um detalhe irônico é  que as “estrelas”  neo-democratas-racias, que afirmam ser o Brasil um “ país mestiço” (quando na realidade é multi-racial ), que “não somos racistas”, que “não é possível” dizer quem é branco e quem é negro no país...(chegando ao cúmulo de promover pesquisas para “provar geneticamente” que nossos mais famosos e óbvios negros são na realidade mais “europeus” que africanos..., só esqueceram de fazer um teste de africanicidade com os mais famosos e poderosos brancos do país..., será que o resultado seria assim  tão “misturado” ? ), que todos, independente da cor ou origem tem direitos e oportunidades iguais de atingir o patamar em que eles mesmos se encontram...(apesar dos negros serem obviamente uma raridade no patamar em que estão); se colocados em uma relação apenas com seus sobrenomes mais conhecidos,  relação esta lida  com entusiasmo por um narrador esportivo, daria a impressão de se estar falando de uma seleção esportiva européia completa (e não é a portuguesa...),  já no “segundo time” até que aparecem alguns nomes tipicamente brasileiros...; é importante deixar claro que esta observação não tem nada de “xenofóbica”, mas dá bem a dimensão de quem é, de onde vem e de “onde fala” a  “elite de intelectuais brasileiros” que se arvora em “defender” o país de “perigos” iminentes à democracia e igualdade .

Começando em dizer que “não somos racistas”, depois alardeando em uníssono “divisões perigosas” e por fim “descobrindo” na “cabeça do brasileiro” que as elites são “boazinhas” e  progressistas, a mentalidade reacionária e tacanha estaria pasmem, em maior parte “na cabeça” dos analfabetos..., que seriam então os “grandes vilões” do pensamento brasileiro.

Quando ouvi a chamada de matéria que falava em bombásticas revelações em livro sobre “a cabeça do brasileiro” em importante telejornal (por sinal comandado por um neo-democrata-racial), desconfiei que “vinha coisa”;   ao ouvir que pesquisa demonstrava que era “erro” imputar “à elite” de maneira geral a pecha de reacionária, já que há diversas “elites” e a de que trata a pesquisa é a elite educacional (como se não houvesse qualquer relação entre elite educacional e econômica...), que os analfabetos é que eram os responsáveis pelas idéias mais reacionárias e que os mais educados eram justamente os mais progressistas, não contive um “risinho irônico”... .

Ainda na matéria surge uma constatação “inédita”..., na pesquisa quando confrontados com fotos de três homens (um mecânico “branco”, outro mecânico pardo e um professor preto) e  perguntados sobre qual seria o melhor candidato para casar com a filha do entrevistado,  na resposta de 43%  a escolha foi o mecânico branco, 27% preferiram o professor preto e apenas 15% o mecânico pardo...; a impressão é que o “recado embutido”  seria de  que realmente a maioria prefere o branco..., mas  que o fato de ser preto ao contrário do esperado não colocou o preto na última posição..., o que teoricamente daria ao pardo uma carga maior de rejeição..., “provando” a  não discriminação maior para com os pretos...; uma falácia aparentemente coerente... para os mais desatentos... , não fosse o detalhe do preto ser professor..., portanto do ponto de vista social  teoricamente “melhor partido” que os dois mecânicos... e o fato de não ter sido feita (ou pelo menos divulgada) a pesquisa com os 3 na mesma condição (todos professores ou todos mecânicos),  ai sim ficaria muito claro a “cabeça do brasileiro” com relação a cor ).

Outro detalhe é que somando os percentuais temos apenas 85%..., o que leva a crer que 15% não responderam...., temos duas possibilidades: ou não se sentiram confortáveis em declarar sua preferência pelo branco (o que aumentaria a preferência pelo branco para 68%... abarcando comparativamente toda  população que se auto-declara “branca”  (52%) e avançando 16% dentro da população que se auto-declara parda ou preta (47%) e amarela/indigena (1%)...), ou então sendo muito otimistas seriam os “tanto faz” (uma minoria de brasileiros para a qual a cor não faz qualquer diferença...),  o que de uma forma ou de outra desmonta a idéia do “não somos racistas”).

A matéria citada segue, quando entra a comentar os resultados da pesquisa que “livra a cara” da elite, por estranha coincidência..., justamente outro famoso neo-democrata-racial  e amigo dileto do comandante neo-democrata-racial que controla o telejornal..., ai não foi possível conter as gargalhadas..., patético, era o que faltava para tirar qualquer dúvida sobre a intenção do mais recente libelo da  agora “elite boazinha” ... .

 

Vamos aguardar pela próxima trapalhada da tropa de choque neo-democrata-racial...

 

* Juarez  C. da Silva Jr  é  Professor Universitário na área de T.I, ativista do movimento negro com 20 anos de atuação, estudioso da temática étnico-racial brasileira,  formação em História e Cultura afro-brasileira e africana, Conselheiro Estadual de Direitos Humanos no Amazonas.