O que é META-RACISMO ?

                                                                         

                                             Traduções, Compilação e Contextualização: Juarez C. da Silva Jr., 2006.

Joel Kovel em seu livro White Racism: A Psychohistory ( Racismo Branco: Uma Psicohistoria, e é interessante observar que "escaldado" Kovel foi bem enfático no título, explicitando ao que ele se refere, para que não fosse cinicamente "distorcido"...pelos meta-racistas para uso "inversionista" prática comum a eles)  publicado em 1970 e republicado em 1984 descreve "meta-racismo" como "... o racismo de tecnocracia; isto é, sem mediação psicológica como tal, no qual a opressão racista é executada diretamente POR MEIOS ECONÔMICOS E TECNOCRÁTICOS", ainda segundo Kovel "Como ele incorpora as formas mais avançadas de dominação, transforma-se em múltiplas configurações como um camaleão (independentemente das formas necessárias para executar a sua missão racista), e é mais  eficiente que as formas mais antigas, cheias de ódio, odiosas formas do racismo que levavam a discriminação e violência pública e aberta - META-RACISMO é o modo dominante do racismo no capitalista pós-moderno"

Fenômeno também destacado por  (Zizek 1995), "vivemos um novo tipo de racismo, um racismo pós-moderno, um "meta-racismo", que pode perfeitamente assumir a forma de um combate contra o racismo. Essa resistência cínica pode ser encarada como uma das vicissitudes da atual abertura proposta pelo liberalismo e seu projeto de re-invenção da democracia e do discurso dos direitos humanos", porém como a diferença entre o meta-racismo e o racismo direto, tradicionalmente de forma aberta e declarada, é  nula ( já que não existe metalinguagem...), faz com que o cinismo com o qual se apresenta o meta-racismo o torne muito mais perigoso.

Portanto como vimos, o  META-RACISMO é o "racismo cínico travestido de bonzinho", que nega ou minimiza a existência do racismo  e que em nome da "igualdade constitucional" ou de suposta harmonia reinante e para evitar "racismo as avessas" (sic), "embarreira" toda e qualquer ação afirmativa efetiva com recorte racial que realmente altere o "Status Quo" e favoreça os tradicionalmente discriminados..., atuando prioritariamente no embarreiramento sócio-econômico dos "não brancos" , vide :

"[..]o racismo, como construção ideológica incorporada em e realizada através de um conjunto de práticas materiais de discriminação racial, é o determinante primário da posição dos não-brancos nas relações de produção e distribuição" (Hasenbalg, 1979, p. 114).

"[..] (a) discriminação e preconceito raciais não são mantidos intactos após a abolição mas, pelo contrário, adquirem novos significados e funções dentro das novas estruturas e (b) as práticas racistas do grupo dominante branco que perpetuam a subordinação dos negros não são meros arcaísmos do passado, mas estão funcionalmente relacionadas aos benefícios materiais e simbólicos que o grupo branco obtém da desqualificação competitiva dos não brancos." (Hasenbalg, 1979, p. 85)

Esta "nova", perigosa e eficiente forma de "racismo cordial", agora utilizada entre os norte-americanos e em vários outros países do mundo  e identificada por eles a partir dos anos 70, é nada mais nada menos que o nosso velho conhecido e eficiente "racismo à brasileira exportado", já identificado por autores brasileiros como Oracy Nogueira e Florestan Fernandes, desde os anos 50, com o desmascaramento da falsa democracia racial brasileira, cujos defensores (a quem se pode referir como NEO-DEMOCRATAS-RACIAIS) utilizam entre outros argumentos falaciosos no caso do Brasil, a alta miscigenação brasileira  (característica que se dá quase exclusivamente nas classes desprivilegiadas e de presença mínima nas partes superiores da pirâmide social ),  fazendo apologia a "mestiçagem", termo de cunho ideológico diferente da simples miscigenação natural ) como "prova" da "não existência" ou minimização do racismo.

Faz parte também da estratégia dos meta-racistas, a prática do "alarmismo" (previsões catastróficas, de divisões e ódios) além  do "Inversionismo", que consiste em atribuir às vítimas a culpa por sua discriminação, como no conhecido discurso do "O negro é que se  auto-discrimina ", ou a atacar os verdadeiros e históricos combatentes do racismo, atribuindo-lhes maliciosamente a pecha de "racistas" , "racistas ao inverso" ou "intolerantes", sempre que estes propõem  ações afirmativas (AA) ou se manifestam veêmentemente contra as  desigualdades e/ou denunciando e esclarecendo  as características sutís de atuação do racismo moderno.