Artigo original em : http://www.geocities.com/revoltadoqueimado/revolta.html -Copyright © 19/03/2002 / 19/03/2004 - All Rights Reserved : CJBS  (Clério Borges)

REVOLTA DO QUEIMADO: NEGROS EM BUSCA DE LIBERDADE

IGREJA DE SÃO JOSÉ DO QUEIMADO  

Queimado é um Distrito da Serra, Espírito Santo, Brasil.

No dia 19 de março de 1849, Queimado foi palco de uma Insurreição de negros escravos.

A antiga freguesia de São José do Queimado, criada em meado do século XIX, está hoje incorporada ao município da Serra, um dos que compõem a área periférica da Grande Vitória. O povoado de Queimado estava situado às margens do rio Santa Maria, por onde trafegavam canoas carregadas de café, farinha de mandioca, cana-de-açúcar, milho, feijão, coisas que os do lugar plantavam pelo método costumeiro: Derrubar, queimar, roçar. Na década de 1840, quando chegou a reunir cerca de 5 mil moradores, parecia que o destino reservava certa importância ao povoado, não obstante a pobreza do lugar. Mas um lento e irremediável processo de decadência econômica e despovoamento, iniciado já na segunda metade do século XIX, frustrou esta possibilidade. Hoje, no local onde se localizava a vila, os únicos testemunhos visíveis do engenho humano são as ruínas da Igreja de São José

As Insurreições ou revoltas de escravos eram comuns nas Vilas e Aldeias do Espírito Santo e do Brasil. A Insurreição do Queimado foi uma revolta que durou até a prisão de Elisiário, um dos líderes do Movimento, cinco dias depois do início da Insurreição. A revolta começou dia 19. Chico Prego morreu enforcado na Serra Sede. João da Viúva Monteiro, morreu enforcado no Distrito de Queimado. Elisiário fugiu da cadeia, graças a um milagre e formou um quilombo na região depois do Morro do Mestre Álvaro e do Monte do Mouxuara, em Cariacica. 

Recentemente num discurso proferido na Assembléia Legislativa Estadual, uma professora da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo defendeu a tese de que não se deve denominar a Revolta do Queimado como Insurreição.
Informou que o termo Insurreição foi usado pelos Senhores para menosprezar o ato de bravura e combativo dos negros. Também defendeu a tese de que não se deve creditar ao frei Gregório Maria de Bene, a idéia inicial da luta pela liberdade, que segundo a mesma, surgiu através dos próprios negros, através da figura de Eliziário.
Com relação a tais colocações, o historiador e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Clério José Borges, nada tem contra. Segundo Clério Borges, "Eliziário teve grande importância no Movimento. Era escravo de uma família que lhe ensinou o básico para sua formação. Era negro caseiro e não trabalhava no campo, assimilando e aprendendo com o seu Senhor. É certo que o frei Gregório não gostava da escravidão. Era de origem européia e os Europeus não gostavam da Escravidão. Frei Gregório era Italiano. Deve-se sim, creditar a frei Gregório, deixando de lado as paixões, o fato de ter iniciado, com Eliziário, Chico Prego e João Monteiro, (João da Viúva Monteiro) as primeiras conversas sobre a Liberdade dos Escravos. Mas, o movimento pregado por frei Gregório seria por vias pacíficas. Ele iria até a Imperatriz defender a liberdade dos negros escravos. São fatos históricos. Estão registrados na obra de Afonso Cláudio que fez um livro minucioso sobre o assunto."
Clério José Borges destaca ainda o fato de que, "Os negros invadiram a Igreja gritando: Queremos alforria, queremos liberdade. os negros estavam armados no momento da invasão da Igreja. Frei Gregório defendia um movimento pela liberdade, mas sem armas. Queria liderar, junto com os negros, um movimento pacífico. A impaciência, gerada talvez pela opressão e castigos que recebiam, levou os negros a uma atitude extrema de se armarem. De armas em punho, já não mais estavam reivindicando por vias pacíficas. Estavam indo contra as Leis vigentes. Cerca de 30 anos depois ocorreria a "Abolição da Escravatura". Com a abolição os negros foram libertados por vias pacíficas. Não foram libertados através de Insurreições ou Revoltas. Foram libertados dentro da Lei. A "Revolta do Queimado" foi uma marco da negritude em busca da liberade,fato que ninguém pode negar, todavia foi feita ao arrepio da lei, ou seja, contra as leis vigentes no Brasil da época, pois foi feita com armas. Sem contar, o prejuízo humano das vidas que foram sacrificadas."

Confira o relato histórico de como foi a Revolta do Queimado, baseado no livro de Clério José Borges, "História da Serra". O livro possui 242 páginas e foi lançado em Setembro de 2003. Está disponível para a compra nas Livrarias Logus, em Vitória e Livraria "Doce Saber", no Shopping Laranjeiras, em Parque Residencial Laranjeiras, Serra, ES. (AQUI)

IGREJA DE SÃO JOSÉ DO QUEIMADO - Arquivo Público EstadualConfira artigo sobre a Revolta do Queimado, do Professor José Roberto Pinto de Góes. No texto várias explicações e detalhes sobre a Revolta do Queimado: "Era escandalosa a desenvoltura dos pretos, a desfilar pelas ruas de Queimado senhores de si. Um grito de “viva o bacalhau!” calou as comemorações e trouxe um pesado silêncio. As últimas casas que se conservavam abertas, foram fechadas. Os que assistiam as estrepolias dos escravos, desapareceram. Alguns escravos, magoados e armados, fizeram menção de atirar no ajuntamento de onde partira o insulto (bacalhau era o outro nome dado ao chicote)." (AQUI)

O Jornal "Correio da Victória", de março de 1849, publica uma série de reportagens sobre a Revolta do Queimado. O material foi pesquisado e apresentado numa exposição em 1999, nos festejos comemorativos aos 150 anos da Revolta. Conheça material coletado por estagiários e pesquisadores do Arquivo Público Estadual. [AQUI]

Fotos da Filme "Insurreição"

O curta "Insurreição" relata a saga dos Negros Escravos do Distrito do Queimado, no Município da Serra, ES, que promoveram uma revolta em 1849. A Direção é do Cineasta, João Carlos Coutinho. (Foto). No dia 14 de março de 2004 foram realizadas filmagens na região do Sítio histórico da Igreja de São João Batista de Carapina. Na ocasião foi realizado um trabalho de registro fotográfico da filmagens.
As fotos iniciais são de Clério José Borges. As demais, principalmente as que mostram as cenas do filme, são de Júnia do Carmo.
Segundo o Jornal A Tribuna, de 12 de Março de 2004, página 05, do Caderno de Cultura, AT 2, "para esta produção, a equipe técnica conta com equipamento de gravação digital, em formato MiniDV, com alta resolução de imagem e som. A finalização e montagem será em ilha de edição não linear. A idéia é a reprodução domaterial em película 35 mm, por meio de quimeoscopia."
Segundo ainda o Jornal A Tribuna, João Carlos Coutinho pretende criar um vídeo histórico de caráter itinerante, para que novas ações sejam desenvolvidas no sentido de preservar o patrimônio existente. Ele também pretende criar um debate e novas pesquisas sobre o assunto. O vídeo será exibido em Universidades, Escolas, Praças e Cinemas de todo o Brasil. O roteiro é baseado na monografia "Insurreição do Queimado - Episódio da História da Província do Espírito Santo", de Afonso Cláudio
Continua ainda o texto de A Tribuna, "o movimento marcou a vida de negros e brancos e sua repercussão pode ser vista mesmo nos dias de hoje, nas ruínas da Igreja de São José, erguida pelos escravos aos domingos e em noites de lua cheia."