A resposta da ralé

(A rebelião da juventude oprimida na França)

 

"Nada temos aqui. Faltam atividades para nossas crianças, centros de lazer... E basta uma batida policial para as coisas acabarem mal. Primeiro jogam os jovens contra o muro, e só depois pedem documento. Imploro aos meus filhos para manterem a calma. A polícia semeia a violência."

 

Parece mais uma descrição das favelas das cidades brasileiras e da brutalidade policial que as oprimem, não é? Mas, não, trata-se de um trecho de reportagem publicada em "O Globo" do último dia 06/11; as palavras são de uma argelina que mora num bairro periférico de Paris, mais precisamente em Clichy-sous-Bois, onde começou a rebelião da juventude pobre que, no momento em que escrevo, já dura duas semanas.

 

As palavras da franco-árabe, mãe de três jovens assumidamente sem perspectivas dentro da sociedade existente, demonstram entretanto que o acontece na França tem muito a ver com o que vivemos no Rio e no Brasil. O racismo, a violência do estado e o desemprego que atormentam os jovens pobres na França são no fundo os mesmos que atingem nossos jovens nas favelas e periferias, embora a violência propriamente dita seja muita mais intensa aqui.

 

Um bom ponto de partida para se entender o que acontece na França (e, indiretamente, em várias outras partes do mundo), é o filme "O Ódio" ( La Haine), de Mathieu Kassovitz, filmado há dez anos atrás, e que trata precisamente do problema da juventude das banlieue (os subúrbios pobres de Paris). A história começa com um confronto entre jovens e a polícia, e continua mostrando as opções individuais de três amigos: um branco pobre que opta pela criminalidade e a vingança individual; um árabe acomodado que só quer "aproveitar a vida" mesmo com todas as dificuldades; e um africano que rejeita a violência e procura uma alternativa através da cultura. No decorrer do filme, ficamos convencidos da inviabilidade destes três caminhos, mas nenhuma alternativa aparece... A única ação coletiva da juventude sugerida por La Haine são os confrontos localizados com os policiais, que também parecem não levar a nada...

 

Dez anos depois, parece finalmente que a vida real começa a dar alguma resposta às angústias despertadas pelo filme de Kassovitz. O levante dos adolescentes na França não só mostra que a realidade de 1995 não mudou, como provavelmente piorou. De fato, se a realidade social e econômica de fundo (desemprego, segregação espacial, desagregação familiar e cultural, etc) não se alterou em quase nada, em compensação o racismo e a intolerância política-policial e cultural aumentaram muito.

 

O crescimento do fascismo de Le Pen & Cia, simbolizado pela chegada do ultra-reacionário ao segundo turno das eleições presidenciais de 2002, não foi respondido pela grande maioria dos partidos de direita, "centro" e esquerda com um antifascismo militante. Pelo contrário, todos trataram de adaptar seus programas adotando discursos e propostas da extrema-direita, anti-imigrantes e "tolerância zero" (a política "de segurança" nascida nos EUA que é fascista até no nome). Juntando isso com o anti-islamismo da "guerra ao terror", e com os ataques às políticas sociais em nome da consolidação da União Européia (a aplicação do tratado de Maastricht de 1992), vemos se desdobrar uma situação progressivamente insuportável para a população pobre das periferias, em particular a parcela imigrante (árabes, africanos, etc) ou descendente, e dentro dela particularmente a juventude.

 

O cerco da intolerância e o descaso tiveram seus momentos mais simbólicos nos últimos dois anos. Em 2004, foi aprovada a legislação que proibiu símbolos religiosos nas escolas públicas, claramente apontada contra o véu muçulmano. Também no ano passado, o governo desenterrou uma lei de 1945 para expulsar oito religiosos islâmicos acusados de incitar a jihad (guerra santa). Essas e outras medidas com certeza sepultaram qualquer resto de simpatia que o governo de Chirac conquistara junto aos imigrantes/descendentes com sua oposição à invasão norte-americana do Iraque. Neste ano (2005) foram os repetidos incêndios com mortes em cortiços habitados por africanos, que revelou a miséria escondida debaixo do tapete da "civilização" francesa.

 

Mas, o símbolo mais eloqüente foi a ascensão do Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, direitista assumido, defensor fanático da "tolerância zero", e até há pouco um dos mais cotados para concorrer às próximas eleições presidenciais (2007). Sarkozy foi a escolha de Chirac em 2002 para disputar os votos conservadores com Le Pen, e sua nomeação foi uma verdadeira declaração de guerra à periferia. Após ser afastado em março de 2004 por Dominique de Villepin (principalmente por divergências quanto à política de imigração), voltou triunfante ao governo (enfraquecido pela derrota no plebiscito que deveria aprovar a constituição européia) em junho último. Ao assumir, lamentou que apenas 8 mil imigrantes tenham sido expulsos da França em 2004 e prometeu que esse número chegaria a 23 mil em 2005. Retomou seu discurso a favor do endurecimento de penas contra reincidentes e inaugurou seu método de usar frases generalizadoras e preconceituosas ao comentar um conflito entre ciganos e norte-africanos numa pequena cidade: "Pedirei algumas contas e não tenho a intenção de tolerar que duas comunidades possam se enfrentar e se comportar como selvagens".

 

Sarkozy foi o verdadeiro detonador da rebelião da periferia. A morte dos dois jovens em Clichy-sous-Bois provavelmente ficaria em alguns protestos isolados e numa marcha pacífica que aconteceu no dia 28/10, se não fosse a intervenção provocativa do ministro do Interior e da polícia sob seu comando (que lançou granadas dentro de uma mesquita, por exemplo). Sem esperar qualquer investigação chamou os garotos eletrocutados de "ladrões"; e quando começaram os protestos qualificou os jovens envolvidos de "lixo", "escória" e "ralé". Com certeza, não esperava pela magnitude da resposta da "ralé" a essas palavras...

 

"Tudo o que for do Estado, do governo ou de empresas vai ser queimado"

 

Palavras ditas por um jovem de origem árabe a um jornalista brasileiro e publicadas na "Folha de São Paulo" de 08/11. Junto com o fato dos alvos principais dos rebeldes serem automóveis, escritórios e prédios governamentais e algumas lojas, além da polícia (ou seja, símbolos e agentes do Estado e da propriedade, e não pessoas aleatoriamente), elas revelam uma maturidade inesperada para uma juventude "sem perspectivas". Algo bem diferente de Al Qaeda.

 

Ao que tudo indica, todas as etnias e todas as "tribos" descritas no filme de Kassovitz estão participando do levante. E mais uma, que em 1995 era inexpressiva: os jovens que aderiram ao islamismo militante.

 

A juventude envolvida com o crime. O governo e boa parte da imprensa procuram creditar às "gangues" todo o volume de ataques e protestos, mas esta versão rapidamente caiu no descrédito. Como em todo o resto do mundo, a parcela da juventude pobre realmente dedicada ao crime é bem pequena, e seria impossível para ela realizar tantos atos em tantos locais simultaneamente. Mas, não há dúvida que jovens "delinqüentes" também estão participando do levante, mas fazendo o quê? O baixíssimo índice de roubos e assaltos observados durante os ataques parecem mostrar que mesmo a "tribo do crime" está de alguma forma integrada ao movimento coletivo, não estão agindo da maneira individualista que os caracterizam em suas atividades delituosas.

 

A juventude dos movimentos culturais e sociais. Esta parcela deve ser a principal responsável pela comunicação e articulação da revolta, devido à sua familiaridade com celulares, blogs e rádios piratas (principais meios de comunicação entre os rebelados depois do "boca a boca"), bem como o demonstra um discurso articulado provavelmente originado nos fortes movimentos anti-racismo existentes há anos nas periferias.

 

A presença da juventude islâmica não está sendo fácil de detectar, mas com certeza ela existe e é forte, caso contrário não se justificaria a frenética busca pelo governo dos ditos "líderes mulçumanos moderados" para fazer apelos à ordem e lançar fatwas (decretos religiosos) contra o "vandalismo".

 

Mas, sem dúvida, a grande maioria dos manifestantes pertence à imensa "tribo" dos jovens preocupados principalmente com festas e namoros, cuja ficha caiu e repentinamente se deram conta que seus sonhos de consumo não têm qualquer chance na prática. Devem ter sido eles que escolheram os automóveis, símbolo universal do consumismo ocidental, como os alvos preferenciais (e também mais fáceis). Não é a primeira vez que algo assim acontece; em 1992, no levante dos negros e latinos em Los Angeles, os alvos também não foram aleatórios, o povo pobre escolheu outro ícone do consumismo: os shopping centers.

 

Todas essas "facções" parecem estar se articulando e completando muito bem, cada uma aprendendo e apoiando a outra, num movimento descentralizado, sem programa e organização formal, mas com um discurso bastante homogêneo (não agüentamos mais racismo, discriminação e desrespeito) e uma reivindicação síntese: queremos "Sarko" (o ministro do Interior) fora.

 

Com essa composição, discurso e métodos de luta, a rebelião em poucos dias conseguiu algumas vitórias significativas.

 

Primeiro, impôs no centro do debate público a discussão sobre a desigualdade social, o racismo e a opressão da periferia. A tentativa do governo de estigmatizar e isolar os manifestantes do conjunto da comunidade dos bairros pobres fracassou completamente. Mesmo sem participar dos confrontos e incêndios, a parte da comunidade que se manifestou verbalmente o fez com o mesmo discurso dos rebelados, em sua grande maioria. Mesmo os moradores dos subúrbios que perderam seus carros não se queixam dos motivos da revolta, mas dos alvos escolhidos ("Atacam quem já não tem condições. É isso o que nos exaspera. Não entendemos", declaração de um mecânico do bairro operário de Sevran, publicada em "O Globo" de 10/11). Esses atingidos, sintomaticamente, não estão apelando para a polícia, mas formando milícias para proteger suas pequenas propriedades por conta própria.

 

Segundo, desmoralizou na prática a política de "tolerância zero". Até agora foram, por exemplo, mais de 6 mil carros destruídos; isso é um prejuízo muito maior que os assaltos, roubos e outros "atentados contra a propriedade" que a política de segurança fascista possa ter evitado ao longo dos últimos anos. É verdade que os prejuízos estão muito concentrados ainda nos próprios subúrbios, afetando pouco a burguesia e a classe média branca, mas a incapacidade demonstrada pela polícia para evitar a destruição material é um fato incontestável.

 

Terceiro, estabeleceu uma trégua praticamente completa entre etnias e gangues rivais, concentrando a hostilidade nos alvos que simbolizam o Estado e a sociedade de consumo. Não consegui encontrar nenhuma notícia de conflitos entre gangues e grupos étnicos desde que a rebelião começou, embora esses sejam tristemente freqüentes nos subúrbios em condições normais, e embora o clima geral de confusão fosse propício para ações de vendetta.

 

A rebelião ainda não conseguiu, é verdade, depor Sarkozy. E agora entra numa fase decisiva, após o recurso do governo ao estado de emergência e ao toque de recolher. Mas, mesmo aqui, há uma certa vitória do levante: obrigou o Estado francês a se desmascarar, e a utilizar uma lei de meio século que havia sido criada especificamente contra a rebelião anti-colonial na Argélia.

 

 

Banlieue, periferia, favelas

 

Não foram poucos os que chamaram atenção para a ironia histórica: uma lei colonialista sendo invocada contra os descendentes dos povos colonizados, agora dentro da própria França. E não poderia haver algo mais simbólico da verdadeira realidade histórica atual do mundo: hoje não há propriamente "Primeiro Mundo" e "Terceiro Mundo" (o "Segundo" já se foi há tempos); ou melhor, cada país tem sua própria parcela de "Primeiro" e "Terceiro" mundos dentro de suas próprias fronteiras, só que em proporções bem diferentes.

 

França, EUA, Alemanha, etc; são países onde o "Terceiro Mundo" é uma ilha cercada pelo "Primeiro Mundo", e a separação não é apenas de renda: é cultural e racial. Já em países como o Brasil, México e África do Sul, por exemplo, o "Primeiro Mundo" está cercado por um oceano miserável e violento de "Terceiro Mundo", mestiço, negro e indígena.

 

O "Primeiro Mundo" explora e oprime o "Terceiro Mundo", mas hoje o significado disso não é mais Estados dominando Estados; mas classes mundiais confundindo-se com nações (ou culturas) mundiais em uma luta cultural-social-de classes mundial.

 

A fronteira entre o "Primeiro" e o "Terceiro" mundos hoje pouco lembra as fronteiras nacionais; ela é complicada e passa por dentro das cidades. Ela separa, por exemplo, de um lado os condomínios burgueses cariocas e paulistas e a Paris francesa; e de outro as banlieue árabe-africanas, as favelas do Rio e a periferia de São Paulo.

 

A classe dominante mundial há muito já entendeu isso, tanto que suas polícias estão em constante contato e aprendizado (hoje a polícia do Rio absorve experiências principalmente das tropas israelenses que ocupam a Palestina). Está na hora de aprendermos também, e então ficará claro que as experiências da rebelião da juventude na França estão muito mais próximas de nós, que de um parisiense que more a poucos quilômetros da periferia em chamas.

 

Maurício Campos

Novembro de 2005